O aviso estava escrito à mão numa folha de caderno presa com fita adesiva ao poste da esquina: "Doa-se cachorro. Pastor-alemão, 11 anos, manso. Não é mais possível mantê-lo." Seu Antônio tinha escrito aquilo às três da manhã, depois de descobrir que a aposentadoria não cobriria o antiparasitário e a ração ao mesmo tempo. Quando acordou e foi olhar para Rex dormindo no tapete gasto da varanda, arrancou o papel do poste antes mesmo de tomar café. Mas os dias seguintes foram passando, e a situação não melhorou. O papel voltou ao poste na quinta-feira.
Rex tinha onze anos e carregava nos quadris a artrite que veio com a velhice, mas seus olhos escuros ainda seguiam cada passo de Seu Antônio pela casa com a devoção absoluta de quem nunca aprendeu a amar pela metade. O cachorro havia chegado quando a esposa do velho ainda estava viva, presente de um filho que morava longe e raramente ligava. Dona Conceição havia escolhido o nome: Rex, porque ela dizia que todo cachorro merecia um nome que soasse como realeza. Ela morreu dois anos depois. Rex dormiu na porta do quarto por uma semana inteira, farejando o ar como se ela pudesse voltar.
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Na tarde de uma sexta-feira comum, a menina do vizinho — Isabela, seis anos, cabelos presos em rabo-de-cavalo e um jeito de correr que parecia que ela nunca havia tropeçado na vida — desceu até o córrego nos fundos do terreno enquanto a mãe atendia uma ligação. O córrego era traiçoeiro naquela época do ano: a chuva da semana anterior havia subido o nível e a correnteza puxava forte por baixo, invisível na superfície calma. Isabela quis pegar uma garrafinha plástica que boiava perto da margem. Deu um passo, depois outro. O chão cedeu.
Rex estava deitado na varanda quando o grito cortou o ar — um grito curto, engolido pela água, quase nada. Qualquer humano no quintal teria levado segundos para entender o que era. Rex levantou antes que o som terminasse. Seus quadris doíam, sempre doíam, mas as patas dianteiras já empurravam o chão antes que a dor chegasse ao cérebro. Ele atravessou o quintal com uma velocidade que Seu Antônio, que saiu atrás aos gritos sem saber ainda o que estava acontecendo, depois descreveria para o delegado como "impossível pra um animal naquela condição".
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O cachorro entrou na água sem hesitar. A correnteza era forte e Rex não era jovem, mas ele encontrou a menina a menos de três metros da margem, já submersa até o pescoço, os braços batendo sem encontrar chão. Ele se posicionou ao lado dela, deixou que ela agarrasse seu pelo com as duas mãos — ela apertou forte, com o desespero cego das crianças que estão morrendo sem saber que estão morrendo — e começou a nadar de volta. Cada braçada custava mais do que a anterior. A artrite nos quadris latejava como fogo.
Quando as patas dianteiras de Rex tocaram a lama da margem, Seu Antônio já estava ajoelhado na beira puxando Isabela pelos braços. A menina tossia e chorava ao mesmo tempo, agarrada ao pescoço do cachorro que não a largou até sentir o chão firme sob os quatro pés. Os vizinhos que vieram correndo ao ouvir os gritos viram Rex parado na beira do córrego, encharcado, tremendo, mas de pé — enquanto Seu Antônio abraçava a menina e o choro dos dois se misturava no ar da tarde.
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Só então Rex caiu. Não como quem tomba — como quem finalmente tem permissão de descansar. Deitou de lado na lama da margem, os olhos abertos, a barriga subindo e descendo depressa demais. O veterinário que chegou vinte minutos depois disse que o coração do cachorro havia trabalhado além do limite, e que havia uma ruptura num tendão do quadril direito que precisava de cirurgia imediata. Disse também, olhando para Seu Antônio com um cuidado que só os médicos de animais sabem ter, que não havia garantia nenhuma de que Rex acordaria da anestesia.
Seu Antônio ficou a noite inteira no corredor da clínica veterinária, na cadeira de plástico dura, sem comer. Ele tinha o papel do poste no bolso — havia ido buscá-lo no início da tarde, antes de tudo acontecer, decidido a não afixá-lo de novo. Agora ele amassava o papel entre os dedos no escuro do corredor e rezava para um Deus com quem havia brigado quando Conceição morreu. E enquanto rezava, lá dentro, ligado a uma sonda e a monitores que bipavam suave, Rex respirava. Mas a cada hora que passava, o veterinário saía com um rosto menos tranquilo — e havia algo na maneira como ele desviava o olhar que Seu Antônio reconhecia. Era o mesmo jeito que o médico havia desviado o olhar antes de falar sobre Conceição.