Marina sempre soube que Thor era diferente dos outros cachorros. Ele não latia sem motivo, não destruía almofadas quando ficava sozinho, não implorava por atenção da forma exagerada que os vizinhos reclamavam dos seus pets. Ele tinha uma dignidade quieta, quase humana, que Marina atribuía aos oito anos vividos ao lado dela — anos que incluíam o velório do marido, as noites em que Lucas chorava sem entender por que o pai não voltaria, e as madrugadas em que ela mesma, exausta e de joelhos no banheiro, perguntava a Deus se ainda havia alguma razão para continuar. Thor esteve em todos esses momentos, sua cabeça pesada e quente pousada sobre o colo dela, seus olhos dourados cheios de algo que a ciência chamava de instinto mas que Marina sabia ser amor.

Por isso, quando o comportamento de Thor mudou na primeira semana de maio, Marina prestou atenção. Não foi algo dramático — não foi um latido furiosa nem uma corrida desesperada pela casa. Foi algo mais sutil e, por isso mesmo, mais perturbador: Thor começou a ir até o canto mais afastado do quintal, perto do muro coberto de hera, e ficava parado ali, o focinho colado à terra, farejando com uma concentração que Marina nunca havia visto nele antes. Ele ficava minutos inteiros naquela posição, imóvel como uma estátua de bronze, e quando Marina o chamava pelo nome, ele virava a cabeça com uma expressão que ela não conseguia decifrar — não era culpa, não era medo, era algo entre urgência e tristeza.

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— Thor, que foi isso? — ela perguntou na segunda vez que o flagrou assim, agachando-se e passando a mão pelo seu pelo dourado. Ele lambeu sua mão uma vez, desviou o olhar de volta para o chão e continuou farejeando. Marina olhou para o canteiro com a sensação estranha de que o cachorro estava tentando lhe dizer algo que ela simplesmente não tinha os sentidos para ouvir.

Lucas, seu filho de doze anos, achou graça quando a mãe contou. "Mãe, ele provavelmente achou uma minhoca gigante", disse o menino entre mordidas de biscoito, os olhos presos no tablet como era de costume depois das aulas. Marina sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Ela conhecia Thor. Sabia a diferença entre curiosidade e obsessão. E o que via naquele cachorro não era a leveza de quem descobriu um inseto — era o peso de quem carrega um fardo.

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Nos dias seguintes, o ritual se repetiu com uma regularidade que começou a incomodar Marina de formas que ela não conseguia articular. Thor acordava com ela às seis da manhã, comia sua ração sem entusiasmo, e logo após pedia para sair. Não para passear, não para farejar os canteiros floridos perto da varanda — ele ia direto para o canto do muro, aquele pedaço de quintal onde a grama crescia mais alta porque o sol mal chegava. Ficava lá. Voltava para dentro. Deeitava aos pés da cama de Marina e a olhava com aqueles olhos que pareciam perguntar: você está vendo? Você está vendo o que eu vejo?

Na quinta-feira, Marina decidiu cavar. Não sabia bem por que — talvez fosse a engenheira civil que ela havia sido antes de se tornar mãe em tempo integral, a parte dela que precisava de evidências concretas para acreditar em algo. Pegou uma pá pequena do galpão e foi até o cantinho. Thor veio junto, sentou-se ao lado dela e observou, a cauda balançando devagar, com aquela solenidade estranha. Marina cavou uns vinte centímetros. Não encontrou nada além de terra escura e raízes de hera. Mas Thor continuou olhando para o buraco como se ali houvesse um portal para outra dimensão, e Marina fechou o buraco com a sensação crescente de que havia procurado na coisa errada.

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O Dr. Henrique, o veterinário que acompanhava Thor há cinco anos, disse que o comportamento podia ser olfativo — que cães frequentemente detectam cheiros de animais mortos abaixo da terra, ou mudanças no solo causadas por água subterrânea. "Não se preocupe, Marina. Thor está em ótima saúde. Se ele não parar em algumas semanas, a gente investiga com mais calma." Ela agradeceu, pagou a consulta e foi embora com Thor no banco traseiro, seus olhos dourados fixos na janela, olhando para trás, como se o consultório guardasse a resposta que o médico não havia conseguido dar.

Foi na tarde de sexta-feira que tudo mudou. Marina estava em uma videochamada de trabalho quando percebeu que a casa estava quieta demais — a ausência do som de Lucas jogando videogame, dos passos pesados dele no corredor, da torneira abrindo e fechando. Ela encerrou a reunião antes da hora, chamou o filho. Nada. Procurou nos quartos, na cozinha, no banheiro. Abriu a porta dos fundos com o coração já na garganta. E encontrou apenas Thor, de pé no meio do quintal, olhando para ela com uma intensidade que fez seu sangue gelar — não estava farejando o chão desta vez. Estava olhando para o portão aberto que dava para a rua. E latiu. Uma vez. Alta, clara, urgente. Como se dissesse: vá. Agora. É agora.