Marina não pensou. Agarrou a guia de Thor, gritou o nome de Lucas mais uma vez para o ar quieto da tarde, e saiu pelo portão atrás do cachorro antes mesmo de pegar o celular. Thor avançou com uma segurança que não deixava espaço para dúvida — não estava farejeando o chão de forma aleatória, não estava seguindo o vento. Ele sabia para onde ia. Sua passada era larga, determinada, e Marina corria para acompanhá-lo, os pulmões já queimando, o coração batendo no pescoço, os olhos varrendo cada calçada, cada esquina, cada criança que brincava longe demais para ser o rosto que ela precisava ver.

Ela percebeu, confusa e apavorada ao mesmo tempo, que Thor estava indo na direção oposta à escola. Lucas deveria ter chegado em casa às duas da tarde, como sempre. O colégio ficava a seis quadras para o norte. Thor estava indo para o sul, em direção à área de mata que separava o bairro do córrego que a prefeitura havia prometido revitalizar por anos e nunca havia feito. Marina engoliu em seco. Lucas tinha doze anos. Doze anos e a curiosidade irrefreável de um garoto que adorava natureza, que colecionar insetos, que uma vez voltou pra casa com uma lesma gigante dentro da mochila como se fosse um troféu. Ela fechou os olhos por uma fração de segundo e pediu — não rezou formalmente, apenas pediu, da forma bruta como se pede quando não há mais cerimônia possível.

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— Thor, vai! Vai, menino! — ela disse, soltando mais guia, permitindo que ele abrisse o passo. O cachorro aumentou a velocidade com uma prontidão que a fez pensar que ele havia esperado por essa permissão o tempo inteiro. Eles passaram pela banca de jornal, pelo mercadinho do Seu Antônio, pela praça vazia do fim de semana com seus bancos de cimento manchados de umidade. Uma senhora mais velha na janela os observou passar e deve ter achado que era mais uma corrida matinal. Marina queria gritar que seu filho havia sumido, mas não havia tempo.

Quando chegaram à entrada da mata — uma trilha de terra batida entre dois postes de luz que a prefeitura esquecera de acender —, Thor parou por um segundo. Levantou o focinho. Virou a cabeça para Marina com uma expressão que ela nunca havia visto nele em oito anos: alívio. Como se finalmente, finalmente, alguém estivesse entendendo. Depois mergulhou na vegetação. Marina foi atrás, galhos arranhando os braços, o chão irregular sob os tênis, a luz do fim da tarde filtrando dourada entre as copas e fazendo aquele lugar parecer simultaneamente bonito e ameaçador.

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Ouviu antes de ver. Um choro abafado, intermitente, envergonhado da forma como crianças choram quando não querem que ninguém saiba que estão chorando. Marina seguiu o som e então o viu: Lucas, sentado no chão de terra, as calças rasgadas no joelho, a mochila ao lado, o rosto vermelho e sujo de lágrimas que ele tentava esconder com o braço. Ao lado dele, uma vala de cerca de um metro de profundidade onde devia ter escorregado. Sozinho e sem sinal de celular, havia tentado subir pelas raízes por horas sem conseguir.

— Mãe — ele disse quando a viu, e a palavra saiu quebrada, toda a armadura de doze anos desmoronando de uma vez. Marina deslizou pelo barranco sem pensar, caiu de joelhos na lama ao lado dele, e o abraçou com toda a força que havia guardado nas últimas horas de terror. Thor entrou na vala atrás deles — o que era tecnicamente impossível para um cachorro de quarenta quilos, mas aconteceu mesmo assim — e ficou lambendo o rosto de Lucas com uma urgência feliz que fez o menino rir entre os soluços.

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— Como você me achou? — Lucas perguntou, ainda abraçado à mãe, os olhinhos indo para Thor que lhe lambeu a orelha com entusiasmo. Marina tentou responder mas a voz não saiu. Ela olhou para o cachorro, que havia sentado ao lado de Lucas com o ar de quem acabou de concluir uma missão muito importante. Como ele sabia? A pergunta pulsou forte, insistente, misturada ao alívio que a deixava sem força nos braços. Thor olhou de volta para ela com aqueles olhos dourados cheios de calma e de algo que parecia, absurdamente, paciência. Como se ele estivesse esperando que ela fizesse a pergunta certa.

Saíram da mata com Lucas no colo de Marina — ela era miúda e ele já era quase do seu tamanho, mas ela não ia largar —, Thor trotando firme ao lado, a guia ainda na mão dela. Quando chegaram à rua iluminada, ela finalmente conseguiu pegar o celular, ligar para o Dr. Henrique não para falar do filho, mas do cachorro. "Preciso entender", ela disse, a voz ainda instável. "Preciso entender o que ele sabia. E por que ficava naquele canto do quintal." Houve uma pausa longa do outro lado da linha. Quando o veterinário falou, a voz dele estava diferente — mais baixa, mais séria. "Marina, eu acho que precisamos conversar. Há algo que você precisa saber sobre Thor. E sobre o que eu encontrei nos exames da semana passada."